Desde pequeno lembro-me de ter ganhado uma caixa de som de minha tia. Tocava algumas canções de ninar, quais me faziam dormir igual um bebê. Porém desde que a ganhei lembro de ter alguns pesadelos estranhos. Neles os amigos do meu pai entravam por volta da meia-noite em nossa antiga casa, com roupas estranhas e cheias de cruzes. Eles iam para o porão e mamãe ficava amarrada em uma cadeira, gritando, e a canção de ninar tocava ao fundo com uma voz destorcida. Teve uma vez que o sonho ficou mais realista sabe? Lembro-me que durante o sonho eu decidi espiar através do buraco da fechadura, sabe como é, a curiosidade humana sempre domina o nosso corpo. Então eu vi minha mãe com os olhos virados, e eles escorriam sangue. Ela gritava com uma voz demoníaca as seguintes frases:
- Vocês são podres, o corpo desta imunda é meu, o seu Deus nunca irá me tirar dela. E aquela criança, aquela que foi gerada por esta imunda de sangue suj..
Mamãe foi interrompida.
Após ver isso em meu pesadelo eu lembro que mamãe conseguiu se soltar das cordas e arrancou os olhos de um daqueles homens que usavam roupas de cruz. Eu não sei se isso é verdade ou foi fruto de minha mente. Mas eu só sei de algo, isto é passado. Hoje estou voltando para minha casa, após dez anos de tratamento nesta maldita clinica psiquiatra. Eu antigamente poderia jurar a Deus que meus sonhos eram realidade, mas hoje eu sei que era apenas fruto de uma mente criativa.
Ah, cheguei em casa. Como era bom estar de volta e poder abraçar meus pais. Que saudade estava da minha mãe! Papai estava meio apreensivo mas acho que deve ser apenas desconfiança de minha cabeça. Hoje iria completar dez anos e um mês que eu não via minha mãe. Estava com muita saudade então passei o dia todo conversando com ela.
Chegou a hora de dormir, então deitei em minha cama e vi que minha caixa de som ainda estava em meu quarto, resolvi tentar faze-lá funcionar novamente. Dei corda e a canção começou a tocar. Após ouvir aquilo as lembranças de meus pesadelos voltaram. A voz que saia da caixa não era a doce voz de uma criança, era a voz de algo que eu tenho certeza que não era humano. Joguei a caixa no chão e senti a sensação de estar sendo observado. Olhei para frente e vi uma sombra. Me assustei um pouco, confesso, mas acho que deveria ser algo de minha mente. Tomei meu remédio e cai em sono profundo. Então eu sonhei tudo aquilo que tinha ocorrido há anos atrás, porém com mais detalhes; o sangue na parede; minha mãe bebendo o sangue daquele homem; todos os gritos; o corpo enterrado no quintal. Minha internação tinha sido uma farsa para cobrir tudo que aquela mulher tinha feito. Então eu acordei desesperado, fui para o quarto dos meus pais, abri a porta devagarzinho e sem pressa. Então eu vi minha mãe com os olhos virados, a cama tremia toda meu Deus! Meu pai com o pescoço cortado e ela bebendo o sangue. O sangue de meu pai. Eu corri para as escadas então ela me fez tropeçar. Eu quebrei uma perna, não tenho como fugir. Duas horas se passaram, eu estou com um pequeno corte no pescoço, ela está sugando meu sangue e cantando essa maldita canção.
- Dorme filinho do meu coração, deita no meu colinho e ouça a canção, faço um carinho para seu sono chegar, dorme filinho do meu coração.
Agora eu estou aqui, preso para sempre na escuridão, com esse demônio todas as noites me ninando junto com as outras crianças que ele levou ao passar dos anos. Agora eu estou sozinho no escuro, por favor, caso você ouça aquela pequena caixinha de música que ele canta todas as vezes, aquela canção de ninar, corra. Corra pro mais longe possível. Porque ele estará perto, e você estará aqui.
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